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Espirais de Madeira: uma História da Arquitetura de Curitiba

Os Lambroquins Da Ilha Reunião: Geometria Diária, Geometria do Infinito

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O Lambrequim e sua Mensagem Poética

Simbólico e Poético

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Poesia de Luciana R. Mallon

Lambrequins em Ponta Grossa

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Lambrequins e Rendilhados:
memória de ornamentos em madeira

Uma pequena história de lambrequins...



O LAMBREQUIM E SUA MENSAGEM POÉTICA

O Lambrequim e sua mensagem poética
Universidade Federal do Paraná
Curso de Comunicação Visual
1978
Heloisa Maria Campos
Vânia Alves Cordeiro





"O lambrequim e sua mensagem poética é uma investigação de cunho semiótico, abordando a problematização do signo, sem mais de ocupar de referente, significado, significante, ou conteúdo de expressão, voltando o problema para a mensagem poética que ele evoca, fugindo da tradição carregada de mecanicismos."

O homem utiliza a palavra escrita ou falada para transmitir pensamentos ou idéias, que podem deixar de ser somente descritivos para serem visuais: sinais e imagens, que podem ser objetos naturais ou objetos fabricados pelo homem.

A civilização ao criar o envoltório artificial do homem, elabora um mundo povoado de formas, de palavras e de objetos, onde é possível distinguir um mundo de signos.

O lambrequim como objeto fabricado pelo homem, é resultante de uma transformação da matéria em forma; a forma é o signo que lhe dá expressão; através do signo o homem destaca-se da experiência bruta, da experiência imediata e abstrai; abstrai para conceituar.

Ao conceituar, ocorre a criação, quer científica ou artística, resultando um ícone.

O ícone é um signo que se refere ao objeto que denota; é uma qualidade, uma constatação ordenada sintaticamente, com caracteres próprios, lembrando o objeto através de analogias e similaridade.

O lambrequim, sendo um elemento de concepção formal, uma representação resultante da transformação da matéria em forma, possui além da sua utilidade prática, uma significação intrínseca resultante de analogias as formas naturais.

Ao criar o lambrequim, o homem procura satisfazer uma necessidade particular, mas podemos notar que ao mesmo tempo, ao criar esse objeto, satisfaz também a necessidade de outras pessoas.

Cria uma forma de expressão que é feita através de um sinal ou ícone, que por conseqüência resulta numa linguagem objectual.

O lambrequim, uma forma de expressão humana em face de extinção, é hoje considerado um adereço supérfluo.

O aspecto a considerar será o de destacá-lo como linguagem objetual, digno de uma leitura e especulação pelo arsenal de mensagens traduzidas.

Por ser um traço da paisagem curitibana urbana tradicional, deixada pelos imigrantes, é envolvido por um forte significado cultural.

Partindo destas perspectivas, o espaço abrangido pela pesquisa, consiste em enfocar o objeto referencial, o lambrequim, não abstraído, nem generalizado, mas concreto. Através de um procedimento documental fotográfico será analisado segundo referentes teóricos, mesmo porque, não pode ser considerado isoladamente, por ser portador de traços culturais diversos.

UM POUCO DE HISTÓRIA

Os imigrantes que aqui chegaram, forneceram elementos básicos que foram decisivos para uma nova cultura ou novas culturas. Seu meio de vida, seu comportamento em relação a família e à sociedade, seu modo de trabalho, trouxeram elementos característicos e construtivos para a integração na cultura paranaense.

Os grupos vindos da Europa: alemães, italianos, franceses, poloneses, etc possuíam sistemas de organização social, política e econômica bem diversificado; não só em níveis de desenvolvimento como mentalidade de vida. O camponês que veio ao Brasil vivia no mundo limitado de sua aldeia ou região, mas apesar disso possuíam técnicas mais aperfeiçoadas e instrumentos mais adiantados, em todos os tipos de trabalho.

No desenvolvimento do processo de ocupação humana, na fase de adaptação física e social, o contexto cultural de cada imigrante ou grupo de imigrante, influiu decisivamente, tendo em vista os problemas e particularidades do novo meio ambiente. Por exemplo: alguns imigrantes alemães incluíram a varanda nas construções tipicamente germânicas; os italianos se desfizeram de certas peças de seus trajes comuns para se adaptarem ao meio ambiente.

O elemento imigrado concorreu para o desenvolvimento urbano de Curitiba, de diversas maneiras; na vida social, no comércio, na indústria, na atividade cultural, com as colônias em volta da cidade, constituindo um verdadeiro "cinturão verde", que tornou possível o abastecimento.

Os imigrantes, com suas características peculiares, modificaram a paisagem urbana através da arquitetura. A habitação é o primeiro e principalmente o mais viável traço cultural a assinalar a influência do imigrante.

Através dos traços que marcam a habitação, quer seja alemã ou italiana, polonesa ou francesa, sempre existe algo que assinala a influência de seu proprietário e sua origem.

A "tabuinha", por exemplo, serve como telha e como rótulo numa casa alemã.

É certo que nem sempre é possível identificar as influências preponderantes, principalmente se considerarmos as misturas de técnicas, de materiais e de estilos diferentes que se verificaram.

Até o fim do século XIX, e início do XX, no Brasil, nada se alterava em termos de construção. As casas seguiam o mesmo modelo, alinhadas pela fachada, características estas da época colonial.
"Ombreiam-se uma às outras, nos limites dos terrenos", existindo nos fundos, um quintal usado para plantar e criar. As casas são cobertas com telhados de duas águas, os quais são constituídos de beirais prolongados, ultrapassando o limite da área ocupada pela construção.

Os primeiros imigrantes europeus que aqui chegaram, já estavam, mesmo que não diretamente (a maioria veio de pequenas aldeias camponesas), envolvidos pela Revolução Industrial.

Possuindo uma série de recursos mais adiantados, aplicáveis a simples ofícios e à arquitetura.

No aspecto urbano são implantados: rede de água e esgoto; novos princípios de higiene são seguidos e revelam que o ar puro dentro de casa não é nocivo à saúde, mas, ao contrário, muito saudável.

As casas dos imigrantes se afastam do alinhamento da rua, soltam-se, começam a ocupar o centro do terreno, criando um jardim na frente e um quintal nos fundos. Deslocam-se para haver mais ventilação, e no espaço vazio, abrem-se janelas. Possuem geralmente varanda ou pátio coberto, seguindo quase sempre o modelo do chalé europeu.

Nessas casas, de telhados de duas águas, cobertas com telhas chatas (alemãs ou de Marselha), é que vamos encontrar freqüentemente os lambrequins.

Originário da Europa como tantos outros elementos trazidos pelos imigrantes, terá primitivamente, no início, a função de pingadeira, fazendo correr os filetes de água da chuva para o solo, protegendo as madeiras da cobertura. Na Europa é usado freqüentemente em regiões onde a neve é comum.

Em Curitiba, os primeiros lambrequins datam do fim do século XX, concentrados em áreas habitadas por colonos europeus.

O lambrequim veio através de imigrantes, mas não podemos precisar exatamente qual imigrante o trouxe ao Brasil porque os estilos originariamente introduzidos apresentam muitas adaptações, modificações e deformações que são as mais diversas, resultando quase que no desaparecimento do estilo original e tradicional.

Podemos encontrar lambrequins, tanto em casas de alemães e italianos, como em casas de poloneses, franceses e ucranianos.

Verifica-se mais freqüentemente em casas de madeira, mas também pode ser notado nas de alvenaria.

Este problema da incerteza da origem, provém do processo de assimilação de culturas, e é devido às características de cada grupo imigrante, que foram intercambiadas e assimiladas por um processo natural.

O imigrante não foi absorvido pela cultura nacional, nem manteve íntegras suas características culturais. Integrou-se, aceitando padrões e valores que somados aos valores deixados pelos outros, serão anexados aos seus valores e padrões originais. Esta soma resulta numa assimilação natural com sentido pluralista.

Com a criação da Província e a escolha de Curitiba para capital, a população que era constituída de brancos, negros, mulatos e escravos, cresceu e se consolidou rapidamente.

Na época da chegada dos imigrantes em 1871, o sistema de trabalho escravocrata estava em processo de desagregação.

A mão de obra livre foi solicitada, pelo aumento da produção em conseqüência da industrialização do mate, sendo ele a base da economia paranaense. A política imigratória iniciada no Paraná em meados do século XIX está ligada a transformações estruturais no campo econômico e social.

Em 1859, surgiu a colônia Assungui com colonos alemães, franceses e ingleses. Antes dos poloneses os alemães já estavam aqui. Os poloneses se fixaram no Pilarzinho.

O Paraná transformou-se com as outras imigrações: ucranianas em 1895 e os primeiros imigrantes italianos que surgiram no litoral da Província e depois se transportaram para o planalto.

Os imigrantes europeus introduziram novas técnicas, novos produtos e uma nova mentalidade agrícola.

Tanto na agricultura como nas profissões artesanais, os poloneses dominavam.

O fluxo da maior parte de imigrantes alemães data da década de 1850, época em que Curitiba apresentava um centro urbano rudimentar.

Os alemães constituíram importante fator de modernização na região a partir de atividades comerciais e industriais, na região metropolitana.

Um dos fatores característicos da cultura alemã foi o associativismo, através de sociedades de canto, de ginástica e esportes, recreação, cultura, assistenciais, religiosas e de ensino.

Os vários núcleos coloniais formavam um cinturão verde de abastecimento para a capital. Este não foi, porém o único papel das colônias, elas contribuíram também para a transformação da cidade de Curitiba, como fonte de mão de obra especializada, como carpinteiros, ferreiros, curtidores, etc...

...As poéticas carroças já dificilmente se encontram. As antigas residências de madeiras dos colonos com suas amplas varandas com lambrequins artísticos embelezando suas fachadas, com trepadeiras coloridas que cativam os transeuntes quase não existem mais.

Os colonos (jovens) trabalhavam na estrada de ferro Rio Grande, na lavoura ou no mato. As moças, em casas de família de Curitiba.

À partir de 1930, a povoação estendeu-se, e a tendência de urbanização acelerou o fenômeno de contato de culturas; hibridismo de culturas; com a fase intermediária (simbiótica) ocorre a extinção da cultura, e com a extinção da cultura, não há condições de revivê-las, por exemplo a Colônia Abranches.

Ao instalar-se, a Província do Paraná, era realizada apenas a exportação de madeira de lei do litoral, como: cedro, imbúia, canela preta, sassafraz, carvalho, araribá, peroba e outras enquanto que o pinho era utilizado apenas nos limites de "serra acima", dadas as dificuldades de transporte para o litoral.

A madeira alimentava uma pequena indústria, para um consumo dentro da Província.

O pinho era de boa qualidade, foi muito usado para fazer as barricas em que se acondicionava o mate, e também os lambrequins.

No final do século, entre 1896 e 1899, existiam no Paraná, sobretudo ao longo da linha da estrada de ferro São Paulo - Rio Grande, 64 serrarias em produção. Em 1930 já existiam 174 serrarias no Estado do Paraná.

A indústria da madeira desenvolvia-se tendo como unidade de produção a serraria, que formavam uma concentração populacional própria, chegando a cercar-se de uma vila residencial, com dezenas e mesmo centenas de casas para operários, em geral todas de um só tipo, que dão ao conjunto, aspecto padronizado monótono.

Tem a serraria seus próprios armazéns, clubes e farmácias, etc. Tudo pertencente a empresa que tudo abastece à completa revelia do comércio local, suprindo-se de mercadorias adquiridas diretamente na Capital ou em Ponta Grossa.

A serraria não se integra na vida regional, permanece como um corpo estranho, até o dia em que, pelo esgotamento das reservas locais da floresta, acaba levando a população a outros lugares.

Todas as obras de marcenaria, caixas, barricas, palitos e caixa de fósforo, gavetas, taboado para assoalho e forro, produção de alcatrão, breu, pixe e pez, pasta para papel e celulose, terebentina, mastro de embarcações, cabos de vassouras são suas múltiplas qualidades.

O pinho do Paraná (Araucária Augustifólia) adorna e caracteriza a paisagem de quase toda a região. Seu porte ereto e veias retilíneas favorecem a primitiva preparação das tábuas por simples golpes de machado e cunhas, para a feitura de paredes e portas das choupanas dos pioneiros e caboclos sitiantes, eis que resultavam peças de superfície relativamente plana, dada a perícia dos machadeiros e favorável contextura da madeira. Graças a essas qualidades do pinho, surgiram as "taboinhas" também cortadas a machado, para cobertura das choupanas ou mesmo casas maiores dos vilarejos, pois foram as verdadeiras antecessoras, aqui no sul, das simples telhas de barro, goivas, do modelo trazido de Portugal.

Colocadas em camadas superpostas, com as junções transversais e verticais imbricadas, o todo com caimento acentuado para facilitar o escoamento das águas. Pelo mesmo processo do machado e da cunha, o pinheiro também forneceu as tábuas para as pingadeiras, e no interior das casas para as mesas, bancos e banquetas e as barricas confeccionadas à mão pelos barriqueiros, fixada por tiras de flexível madeira de timbó.

ETIMOLOGIA

LAMBREQUIM: palavra francesa de origem holandesa (flam.) - LAMPERKIJM.

Ornatos, constituídos de recortes de pano, madeira ou metal.

Ornatos de recortes de madeira ou metal, para beira de telhados.

Recortes em madeira e zinco decorados que se coloca verticalmente nas partes inclinadas debaixo de um friso do telhado - guardamalleta (espanhol); tábua recortada e geralmente ornamentada com trabalho de marcenaria que pende do beiral ou serve de arremate para o telhado.

Antigamente, na heráldica, nome que se dava a certos ornatos dos elmos ou escudos. Depois, o nome passou a designar enfeites recortados de pano, metal ou madeira, colocados nas beiradas de pavilhões, dosséis, talhados, etc.

Daí o fato de se dar o nome de lambrequim ao rendilhado de madeira recortada usado na decoração das extremidades dos beirais e certo tipo de construção européia da zona alpina, o conhecido chalé, que entrou em voga no Brasil, a partir do fim do século XIX, principalmente na arquitetura particular. Os novos métodos de serragem, com o advento da chamada serra "tico-tico", propiciaram a divulgação intensa dessa nova modalidade decorativa, entre nós, não tendo existido cidade brasileira que não passasse a ter os seus chalés franco-suiços lambrequinados.

Comerciantes de materiais de construção chegaram mesmo a importar dos grandes centros, lambrequins caprichosamente recortados para serem vendidos a metro, como podemos ver em antigos anúncios de jornais do fim do século.

A madeira recortada desceu dos beirais, passou também a preencher vãos e interculúnios de alguns alpendres, transformando as fachadas em obras feminis de rendas e laçarias, aspecto que levou a darem o nome de "sinhaninha" ao lambrequim.

"O lambrequim é a única coisa de brinquedo numa casa de verdade ou a única coisa de verdade numa casa de brinquedo".

Uma marca evidente do imigrante, "os lambrequins" de madeira recortada, ornamenta os beirais. A cobertura de duas águas é feita com telhas de cerâmica em forma de escama, muito comuns nas áreas de colonização germânica e conhecida antigamente, em Curitiba, como telhas alemãs.

...

PRÁTICA SEMIÓTICA
O LAMBREQUIM COMO SIGNO

"A ciência moderna pôs em evidência este caráter semiótico das nossas atividades e das nossas crenças".

Nossos comportamentos, nossas ações e reações estão condicionados aos signos; por serem eles substituições da realidade.

A semiótica não é apenas uma teoria, mas uma força social e não simples instrumento de reflexo das forças sociais.

Uma sociedade é formada quando cria comércio de signos; através do signo, o homem destaca-se da percepção bruta, da experiência imediata, e abstrai. Abstrai para conceituar; as formas abstratas dos lambrequins são portadoras de conceitos materiais; se não houvesse abstração não haveria conceito, sem ela nem sequer existiria signo.

O lambrequim é um objeto criado pelo homem e como tal portador de sua própria significação; constitui-se num signo com seu referente específico dentro da construção de certas moradas.

Podemos introduzir o lambrequim como signo poético. Por possuir caráter icônico, sua mensagem deixa de ser um instrumento da comunicação usual ou referencial para passar a ser um signo de si mesmo. Este caráter icônico diz respeito às representações do mundo onde as formas elementares (o círculo, o quadrado, etc.), os animais e as plantas se transformam em paradigma destas relações psíquicas.

Criado o lambrequim, sua forma reflete analogicamente a gota d'água (seu paradigma). O signo recupera sua qualidade primeira (ícone) quando sustem a função de pingadeira, e perde tal qualidade quando sua função vem ser apenas estética. Possui função poética à medida que se apropria das formas e variações do pingo d'água ao quedar-se.

O suporte natural do lambrequim, a madeira, em particular o pinho, muito utilizado na época, pela abundância e sua boa qualidade, torna o lambrequim um signo poético, na medida em que desautomatiza a visão tradicional da gota d'água. Tal elaboração devolve a este suporte o valor artesanal.

Possui algo de natureza geométrica, que (dá origem) caracteriza sua beleza ornamental, e outra de natureza orgânica, que dá a característica de vitalidade.

Essa natureza geométrica, que implica um sistema de simetrias, de alternativas, de desdobramentos e de réplicas, marca o vazio de onde aparece, conferindo-lhe uma existência inédita.

Antes de ser somente ritmo e combinação, o mais simples tema ornamental geometrizado tem como paradigma estruturas naturais inorgânicas.

Por motivos difíceis de explicar, nossa sensibilidade sente-se atraída por estruturas naturais, que fixadas no nosso subconsciente, um dia são exteriorizadas quando o nosso conteúdo criativo é despertado, para se tornar uma significação icônica.

Tudo pode adquirir uma significação icônica, objetos naturais (pedras, plantas, animais), ou objetos criados pelo homem.

O lambrequim é um signo que foi elaborado com a ajuda de um repertório de sinais que o tornam figura. O repertório é o conjunto finito de elementos materiais, transportáveis, que seguindo determinada ordem, produzem estados inovadores, originais ou novos, através de esquemas criativos, e significativos. Cada estado estético depende de códigos, suportes materiais e de um repertório de elementos materiais (cores, formas, etc.).

A passagem de um repertório para um produto é a caracterização que determina a produção de um esquema criativo...

...O lambrequim como objeto do quotidiano, é portador de uma Gestalt onde sua própria existência é uma mensagem de indivíduo, do coletivo criador ao particular.

Como objeto, enquanto volume, está em relação com outros objetos.

Como a própria noção de objeto está ligada a uma semiótica, sendo o lambrequim um manufato, ou manipulado, é uma unidade, uma unidade, um núcleo unitário de experiências que se conserva imutável na relação espaço-temporal. Sua presença marcou um passado e ainda vive no presente. Um objeto antigo, hoje envolvido e encoberto por objetos novos, ele é uma justaposição inconsciente, é uma forma, um adorno, uma lembrança e uma mensagem nostálgica.

Como quali-signo, admite a forma no plural, portanto a existência de um grande número de elementos semelhantes, ou idênticos sob o mesmo nome.

É uma manifestação criativa desvinculada de ritos, magia e religião.

Como signo, é elaborado através de uma constatação, que está vinculado a significados que conota não somente a sua estrutura de expressão, mas também seu objetivo funcional.

Como indicador cultural, os lambrequins remanescentes, formas vivas, desgastadas pelo uso, envelhecidas pelo tempo, substituídos muitas vezes por outros elementos de mesma função, ainda encerram uma mensagem vivencial muito grande.

...O convívio dos imigrantes que vieram de diferentes países, com conhecimentos de fenômenos naturais ora diferentes, ora semelhantes aos nossos, elaboraram seus códigos de maneira a organizar e estruturar novos universos, com núcleos e conjuntos de substâncias particulares e comuns a todas as culturas.

Os que conheciam o fenômeno da neve se inspiravam nos seus pingentes em degelo, outras nas formas de pinheiros europeus, etc.

Por outro lado, também o fator época, momento, ou modismo afeta o processo criativo. O artesão procurava criar formas que não fugissem do seu meio natural, aproximando tais formas das trepadeiras que cresciam nas varandas de suas casas e das flores dos jardins, como se verificam em vários lambrequins, semelhanças com folhas e flores.

...No processo de criação do lambrequim existe uma relação, sintática (entre as características materiais do signo); em termos de primeiridade onde o ícone mantém uma relação análoga com seu objeto, a gota d'água. A gota d'água é o léxico que adquire novas sintaxes.

A organização sintática é estruturada por coordenação, e o que sintaxeia (?) são as linhas curvas, as formas convexas e côncavas, gerando elementos análogos à realidade.

O lambrequim: uma linguagem objeto, signo repensado, que tem como paradigma elementos naturais.

Onde se encontra a chave secreta de todas as coisas? Na natureza, na fonte original de toda criação?

A natureza é um ponto de partida, nos aspectos mais elementares e gerais da vida das formas.

Verificamos nas formas em particular, ordenações analógicas e de semelhanças, formas estas, resultantes de manifestações de forças naturais; as metamorfoses ocorridas, ou trocas de forma implicam numa identidade de elementos.

O lambrequim, como campo de linha de força se modela seguindo uma norma artística; na composição e organização de elementos analógicos, onde intervêm princípios rítmicos, na simplificação das formas, reduzindo-as ao estado geométrico.

Na natureza não existem linhas retas.

Os filetes da neve em degelo, as gotas de chuva caindo possuem grande expressividade na sua vitalidade cósmica.

A gota d'água é desprovida de formas angulares; conseqüentemente, o lambrequim como sua nova linguagem, possui raras vezes formas constituídas de ângulos, predominando as curvas, côncavas ou convexas, constituindo figurações puras, não violadas, desprovidas de racionalismo estrutural.

As figurações são repetidas, num mesmo sentido, constituídas de forma simples e definidas, ou associadas e complexas.

Devido sua verticalidade, o lambrequim possui maior comprimento do que largura. Assim determinado, pode ser inserido geralmente num retângulo.

Quanto à generalização de forma, o contorno do lambrequim resulta da associação e disposição de vários ritmos lineares.

A rítmica linear é responsável pelo crescimento e decrescimento das formas naturais. Os ritmos e movimentos naturais estão relacionados a ritmos lineares que constituem o contorno; as curvas do contorno produzem no espírito uma impressão de movimento, de vibração, imóveis.

A disposição rítmica implica a divisão de espaço dentro do qual está inserido o adorno.

A divisão de espaço segue princípios de direção linear, de simetria, estabilidade e proporção.

Direção linear do lambrequim: horizontal, vertical nos telhados paralelos ao solo; inclinados ou oblíquos acompanhando telhados angulados.

Simetria: seria a relação tamanho/figura, de proporção de arranjo entre as partes do conjunto.

O lambrequim apesar de ser trabalhado artesanalmente possui contorno simétrico; cada elemento pode ser dividido por um eixo central que permite determinar dois lados inversamente semelhantes.

Cada um dos ritmos lineares pode repetir de uma a duas vezes por inversão. Esta disposição simétrica é um fato natural.

Há simetria nos contornos do corpo humano, no corpo de animais assim como nos dos vegetais.

No lambrequim verificamos também simetria por repetição. Seria uma associação de ritmos regularmente repetidos sobre uma direção linear determinada (o telhado da morada).

Proporções: o contorno dominante consta de vários ritmos lineares cujos movimentos dividem o espaço que ocupa o contorno em certo número de partes.

O aspecto do contorno resulta na disposição, de cada elemento figurante em relação com o conjunto. A proporção cria analogias e contrastes de formas e de dimensões cuja acentuação e atenuação determina o caráter dominante do contorno.

A simples corola de uma flor pode transformar-se chegando a uma abstração...

No lambrequim não há mais que a cópia sincera da natureza que se converte em ornamento a sua simplicidade de expressão. A figura como ornamento sugere a presença de outras formas...

Os lambrequins criando formas ricas e estranhas reproduzem a forma da gota d'água ao cair com toda a sua vitalidade cósmica.

Gota d'água, filetes da neve em degelo, folhas e flores de uva, de louro, de carvalho, de hera, maracujá, flor de tulipa, lírio, campânula...

... Elementos florais: pistilos, pétalas, cápsulas, brotos, gemas, frutos. A sinuosidade das montanhas e picos, pinheiros e cedros são elementos naturais transportados a um objeto: o lambrequim.

FORMA

Havia forma antes mesmo de haver consciência humana da forma, o universo em si, o yin e o yang que surgiram do caos primeiro e formaram essências concentradas. A consciência começou com as formas de percepção, e a inteligência e espiritualidade humana com a representação da forma, esta fez surgir no meio ambiente circundante uma série de objetos de diferentes espécies, além dos objetos naturais.

A apreensão da realidade nos é sugerida através de estímulos provenientes do nosso meio comportamental e a percepção é tanto maior, quanto maior for nossa sensibilidade em relação às coisas. Esta sensibilidade depende de uma série de fatores relacionados intrinsecamente com nossas experiências e conhecimentos anteriores.

Os objetos não estão vinculados somente ao aspecto espaço-temporal; existe algo entre e em torno delas. Uma estrutura e um suporte.

A forma não é nada mais que a apreciação do espírito, uma especulação sobre a extensão reduzida à inteligibilidade geométrica. Os produtos da atividade serão facilmente apreendidos, quanto mais simples for a organização de sua estrutura. A ligação de simplicidade implica na familiaridade que esclarece o problema da freqüência; a noção de matéria não pode ser isolada da noção de forma; como suporte, a matéria, impõe sua própria forma à forma.

O lambrequim como forma, se qualifica pelo campo espacial por ele ocupado, o mesmo ocorre com o espaço que ele exige e do qual se compõe. Como ornamento, representa uma variedade infinita de blocos de espaços, que constituem um universo fragmentado. Os lambrequins se distribuem com regularidade e ritmo num espaço limitado: o telhado da morada onde o fundo se sobressai, apenas no plano de sustentação.

A regularidade lógica das correspondências, dos contatos passam a essa continuidade ondulante onde a relação das partes deixa de ser distinguida e onde o começo e o fim se encontram cuidadosamente ocultos.
A criação se compõe ilimitada sobre a identidade dos temas diversos, onde se demonstra sucessivamente um estranho reino ornamental, lugar de metamorfoses e hibridismos, suscitando uma vegetação, e analogias a outros elementos naturais como a gora d'água, filetes de neve em degelo, etc.

Podem conotar sedimentos de civilização mais antigas, como as gregas colunas jônicas e ornamentos de tendas árabes, transplantados a um espaço amplamente medido e restituídos. O lambrequim possui uma linguagem que expressa a forma e a cor abstrata.
Suas palavras são os motivos, suas frases são as disposições dos motivos. Possui também uma gramática que rege estas disposições fundamentadas na geometria.

A forma abstrata é a base da invenção ornamental que agrupa, associa e combina as formas concretas naturais, assim como a invenção musical agrupa, associa e combina os sons, segundo certas regras de melodia e harmonia.

...repetições sucessivas da mesma forma em uma ordem regular de intervalo e direções lineares de equilíbrio estrutural, devido sua fragmentação, argumentação e repetição.

As figuras circulares são mais facilmente visualizadas pelo seu movimento linear ininterrupto, enquanto que o triângulo é constituído de três tipos de movimentos lineares.

Associações rítmicas: cada ritmo linear constitui unicamente um só elemento de contorno que pode se associar a outros parecidos ou diferentes. Pode variar até o infinito e desenvolver-se em todos os sentidos.

O ritmo se forma com dois ou mais movimentos pares que se evolucionam a cada lado de seus pontos de união.

Ritmos retoangulados; existem tantos ritmos angulados como ângulos.

Se olharmos estas formas nos daremos conta de que se compõem quase que exclusivamente de um só movimento linear ondulado.

Ritmo quebrado com troca de posição e de proporção.

Ritmo retocurvos (base dos movimentos retocurvos): circunferência inscrita num quadrado; a união dos arcos de círculo com uma reta forma pontos secantes.

Lambrequins de casa alemãs.

Associação de um ritmo retocurvo, de um retoangulo e de um curvo prolongado.

Associação de um ritmo ondulado, de um retoangulado e de um ritmo curvo.

Disposição radial.

Os lambrequins apresentam-se em peças de madeira, geralmente de pinho ou imbuia, medindo em torno de 40 cm de comprimento. Raramente as peças são iguais, devido o trabalho de elaboração ser nitidamente artesanal. Mesmo entre os modelos mais freqüentes, existem variações em seus elementos básicos: orifícios, extremidades, ou curvas, quase nunca são exatamente iguais; podemos encontrar mais de um modelo numa mesma morada.

Independente das formas que tenham tido nas suas origens, os lambrequins apresentam uma linha de evolução bastante clara e definida. Desde os cortes em ângulo reto, voltados verticalmente para o solo, ou simplesmente formados por linhas sinuosas, lembrando gregas, existem ainda inúmeras e criativas formas, provenientes umas das outras, chegando a constituir longos e decorativos recortes rendados.

As peças podem ser simples, isoladas, podem ser geminadas, que colocadas lado a lado formarão a estrutura do rendado, ou ainda podem ser constituídos de uma tábua inteira recortada. Podem ser usadas ainda em sentido contrário numa composição variada dependendo da criatividade do artesão. Os rendados são constituídos de recortes geralmente curvos, côncavos ou convexos.

A concepção formal para a fachada principal e arremate da cumeeira é muito cuidadoso e em cada morada há uma concepção diferente e criativa. Geralmente são usados os mesmos modelos dos telhados paralelos ao solo, com modificações; apresentam-se mais longos, possuindo no encontro dos dois beirais um lambrequim mais trabalhado, arrematando artisticamente, com flechas ou outras peças diferentes.

Os lambrequins que ainda enriquecem a arquitetura de madeira de várias casas da região metropolitana variam de 70 a 80 anos, existindo alguns com mais de 90 anos. Aparecem mais freqüentemente em casas de imigrantes alemães e italianos, de acordo com o levantamento estabelecido.

Considerando o aspecto formal, podemos separá-los em modelos simples e trabalhados. Os mais simples compostos por linhas quebradas (de poloneses) e os formados por linhas sinuosas (de alemães); Os mais trabalhados se encontram na maioria em casas de alemães e italianos.

Quanto ao aspecto cromático, os lambrequins apresentam as cores da própria natureza, o verde das plantas, o marrom da terra, a cor da uva, o branco da neve.

"O morador de Curitiba do comecinho do século, ao construir sua casa de madeira, seguia modelos de construção pré-estabelecidos; pode-se dizer que a sua única contribuição pessoal para a beleza externa de sua casa era o lambrequim." ( Valêncio Xavier )

"Alguns proprietários poupando a platibanda e os lambrequins, não esquecem de dar ao telhado do edifício, o jeito característico de rematar as duas extremidades da cumieira com as flechas características."

Além dos arremates com flechas, são usados elementos decorados primorosamente, acompanhando os modelos da morada.

As casas dos imigrantes se afastam ao alinhamento da rua, deslocam-se para haver maior ventilação, e no espaço vazio, aparecem portais, varandas ou pátios cobertos.

FORMA E FUNDO, A ESTRUTURA SEGUNDO A GESTALT

A função do contorno pode ser unilateral e bilateral. No lambrequim atua o contorno lateral que possui a propriedade de dar forma à parte do objeto que ela limita.
Os contornos que dão a forma ao lambrequim não dão forma ao seu fundo; se o fundo possui uma forma, deve-se a outras forças puramente acidentais que produzem a figura situada sobre ele.
O lambrequim depende do espaço limitado sobre o qual aparece para se corporificar.
Analisando o fundo e a figura, o lambrequim propriamente dito, mudando o caráter de fundo para o de figura, parte do campo torna-se mais sólido e na mudança, mais fluída.
Comparando entre si as partes que constituem a figura e o fundo, verificamos que a formação das figuras do fundo apresenta-se mais simples, no sentido de maior uniformidade e menor articulação do que a figura propriamente dita.
A figura admite formas vazadas enquanto que o fundo não.
Poderíamos chamar a figura, o lambrequim, propriamente dito, de forma e o fundo de contra forma.
A forma pode ser visualizada, pode ser sentida através do tato, enquanto que o fundo, a contra forma é uma coisa não coisa, é algo casual podendo ser somente visualizado, é um espaço definido, mas ao mesmo tempo é indefinido no espaço total.

A forma é sólida, o fundo é fluído, não possui cor real.
A figura é mais dura, mais fortemente estruturada, mais impressionável, por causa de densidade de energia dentro da área ocupada.
A figura possui contornos que o fundo não possui.

O fundo não é interrompido, possuindo continuidade.
Por que o fundo é mais simples do que a figura?
Como nem todos os contornos da figura são contornos do fundo, as condições para uma contra forma são mais simples, levando a resultados simples.
Quanto mais articulados forem as figuras, mais facilmente o resto se perderá para formar o fundo da mesma, por isso vemos mais facilmente as figuras do que o vazio entre elas.
O lambrequim como figura, tem melhor forma, porque está limitado por contornos melhores e de maior definição, do que o vazio, o fundo, a contra forma.

"Forma, unidade orgânica que se individualiza e limita no campo visual".

As linhas de contorno do lambrequim são linhas de contorno fechado, fazendo com que se perceba antes uma forma, uma figura de contorno fechado, ou ainda, uma figura plana limitada pela linha, diferenciando-a do campo externo aos contornos, e ao mesmo tempo, das áreas vizinhas, delimitando também as linhas ou padrões lineares abertos.

As figuras integrantes dos lambrequins possuem uma organização "unum" e segundo a Gestalt, padrões lineares relativos aos formatos das áreas.
Na organização "unum" há preferência pela figura singular e global; pelo contorno totalmente abrangente.

O Lambrequim e sua mensagem poética
Universidade Federal do Paraná
Curso de Comunicação Visual
1978
Heloisa Maria Campos
Vânia Alves Cordeiro