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Uma pequena história de lambrequins...



OS LAMBREQUINS DE REUNIÃO
Dominique Tournès, mai 2003

Fonte: www-cabri.imag.fr

Documento original .ppt

Tradução : Babel Fish

Mil rendas de madeira e de chapa.

A arquitetura crioula da Ilha Reunião é sobretudo o fruto dos primeiros recém-chegados, que eram Marín normandos e bretões. As primeiras casas foram construídas por carpinteiros de marinha. É a razão pela qual reencontra-se o mesmo estilo de casas em outras terras colonizadas pelos Marín franceses do século XVII: Caraíbas, Louisiane, Canadá, etc..

A casa da Ilha Reunião, a casa crioula é inserida harmoniosamente na vegetação tropical. Um dos seus elementos característicos é a varanda, zona intermédia entre o interior e o exterior. É um lugar onde descansa-se e onde recebe-se os amigos sem, no entanto, estar a fazê-lo penetrar na intimidade do lar. A fachada da casa - em especial a dianteira varanda - é ornada de elementos decorativos de carácter geométrico. Pensa-se que os carpinteiros de marinha transpuseram lá os elementos decorativos das varandas dos navios.

Estas decorações, feitas de madeiras recortadas e abertas têm primeiro uma função utilitária: os trilhos impedem cair pela janela; os travessões e balaústres servem à ventilação (entrada do ar fresco pelos balaústres da parte inferior e saída do ar quente pelos travessões da parte superior); por último há os lambrequins, dos quais vai-se falar mais em detalhe na seqüência.

A palavra "lambrequim" é antiga e enriqueceu-se de vários sentidos desde a Idade Média. De origem neerlandesa, a palavra significa pequena vela, banda de tecido com caráter decorativo. Na Idade Média é um ornamento de tecido que se põe sobre o capacete. O termo continuou a ser usado na heráldica para designar as bandas de tecido que descem do heaume e que cercam "l'écu" das armas. Seguidamente, no século XIX, a palavra foi empregada para designar as bandas de tecidos festonnées utilizadas para decorar as cortinas de janelas, os véus de cama, as cortinas de teatro. Designa também os motivos decorativos com simetria axial empregados para ornar certas peças de porcelana (faïencerie Rouen e de Delft) e as encadernações de livros.

O último sentido é o que interessa-nos aqui: os lambrequins são os ornamentos recortados, em madeira ou chapa, que põe-se ao longo do teto de uma casa. É este sentido que foi retido na língua crioula. Na Ilha Reunião, a palavra "lambrequim" pronuncia-se "lambroquin" e admite sinônimos representados por imagens como "renda de casa" ou "renda frente".

A função principal dos lambrequins é proteger a fachada contra os escoamentos de água de chuva que têm tendência a danificá-la. O lambroquin reúne a água e a faz gotejar na frente da fachada.

Põe-se muito em redor das casas ricas. Nas residências mais modestas, satisfaz-se em limitar as capas que protegem as portas e as janelas. Por outro lado, se nas casas ricas, os lambrequins são de madeiras, nas casas mais pobres, eles são de chapa. O lambroquin em chapa, recortado com vazador, custa evidentemente mais caro que o lambroquin em madeira recortada à mão.

Hoje em dia, as casas são equipadas com goteiras e calhas como nos outros lugares, mas não se abandonou o lambroquin para tanto. Perde gradualmente a sua função utilitária em proveito de uma função meramente ornamental.

Nos anos 1960-1970, teve-se tendência a abandonar a arquitectura crioula tradicional para construções de betão; houve nessa época muitos cubos de betão sem nenhuma personalidade. Desde os anos 1980, a arquitectura crioula retornou em força, com a restauração das casas antigos e uma vontade geral dos arquitetos para reencontrar um estilo bem adaptado ao clima e em harmonia com a cultura da Ilha Reunião.

Atualmente, as construções públicas, as sedes sociais das empresas e as casas particulares exploram abundantemente os elementos tradicionais da arquitectura crioula, às vezes até em excesso.

Utilizam-se lambrequins até mesmo para decorações internas, ligeiramente em contradição com o destino inicial do objecto, por natureza externo.

Em 1985, um arquitecto, Jean- Paul Egon, inclinou-se sobre os lambrequins tradicionais em madeiras e separou os vinte modelos mais correntes. Interrogou seguidamente um grande número de pessoas para saber que representavam estes motivos, quais nomes eles tinham, numa palavra qual lugar eles ocupavam no imaginário da população da Ilha Reunião.

Os motivos usuais dos lambrequins representam plantas, animais ou objectos familiares (amarilis, tulipa, orquídea, corbélia, caranguejo, vinha, pássaro e lanterna).

Durante o tempo, observa-se uma evolução dos motivos que vai, em geral, para uma simplificação das linhas: as curvas amaciam-se, os pontos rebuscados têm tendência a desaparecer. Aquilo corresponde à uma prática dos artesãos: cada um que copia os modelos herdados do seu mestre, tem tendência a simplificar para diminuir o tempo de trabalho e a dor da tarefa. Particularmente é o caso da parte vazada, de difícil realização. A simplificação resulta igualmente da passagem da madeira para a chapa, para a qual o corte vazado adapta-se mal às formas torneadas. Conduz-se frequentemente, por este processo, a motivos abstratos nos quais aflige-se reconhecer a significado original.

O motivo do pássaro é um dos exemplos mais típicos desta evolução.

Na mesma ordem de idéias, constata-se sobre este exemplo de restauração onde o restaurador copiou o motivo inicial simplificando-o de maneira bastante importante.

Geometria diária, geometria do infinito

Deixemos temporariamente de lado os aspectos utilitários, estéticos e artesanais dos lambrequins. Considerados de maneira abstrata, estes objetos são desenhos, motivos repetitivos e, por este motivo, pertencem à geometria.

Quando se olha uma casa crioula entre as mais simples, se é golpeado pelo gosto da simetria que se manifesta (veja as cortinas). Quando balaústres e travessões desapareceram, permanecem sempre os lambrequins, este friso que aumenta a casa e confere-lhe um prolongamento virtual de cada lado, para o infinito.

O estudo matemático dos desenhos com motivos repetitivos foi feito, essencialmente, no fim do século XIX, graças aos progressos da teoria dos grupos e sob o impulso dos trabalhos dos cristallographes (nomeadamente o Russo Fedorov). No plano, há quatro tipos de simetrias, ou seja, de transformações que conservam a forma e a grandeza das figuras:
  • a translação de um comprimento dado numa direção e um sentido dados;
  • a rotação de um ângulo dado em redor de um ponto fixo chamada "centro";
  • a reflexão ou simetria ortogonal em relação a um eixo dado;
  • por último a simetria deslizada, transformação ligeiramente menos intuitiva que resulta da aplicação sucessiva de uma reflexão em relação a um eixo e uma translação na direção deste eixo.

    A ornamentação, a arte e o artesanato, recorre frequentemente à repetição de um motivo básico. Pode-se distinguir três grandes tipos de desenhos com motivos repetitivos, de acordo com o número de translações independentes que entram em jogo. "Rosáceas" são os desenhos com motivos repetitivos que são invariantes por nenhuma translação. Como exemplos, pode-se pensar nos vitrais das catedrais ou, mais perto de nós, nos bordados jours de Cilaos. "Frisos" são os desenhos que são invariantes por translações em uma só direção. Os lambrequins são exemplos típicos de frisos. Por último, para os desenhos conservados por translações em pelo menos duas direcções, fala-se "pavages". Todos conhecem pavages que servem para decorar o solo das nossas casas. Existe dezessete tipos matemáticos de pavages: Alhambra Grenade é provavelmente o único lugar do mundo onde pode-se observar estes dezessete tipos simultaneamente.

    Há sete tipos matemáticos de frisos. Imaginou-se vários sistemas de notação para codificá-los. A notação abaixo é a notação internacional, a inventada pelos cristallographes russos. O "p" (para "pattern"- padrão) designa, de maneira geral, a presença de uma translação. O segundo caracter é um "m" (para "mirror"- espelho) se há uma reflexão vertical, 1 se não. O terceiro caracter é um "m" se há uma reflexão horizontal, tem (o primeiro vector de uma base (tem, b, c)) se há uma simetria deslizada de eixo horizontal, um 1 se não. O terceiro caracter é um "2" se há uma simetria central (rotação de ordem 2), um 1 se não. Existe outra notação, melhor adaptada num contexto pedagógico: a utilizada por Yvon Bossard no seu livro "Rosaces, frises e pavages": f para "frise"; 2 se há uma simetria central, 1 se não; um "m" à esquerda se há uma reflexão vertical; um "m" ou um "g" à direita se há uma reflexão ou uma simetria deslizada horizontal."

    Sobre um motivo básico inspirado na arquitectura crioula, construiu-se aqui os sete tipos de lambrequins teoricamente possíveis (a barra horizontal, que representa o rebordo do teto, não deve ser considerada como parte do friso). Constata-se que a notação economica adoptada traduz diretamente um algorítmo que permite reconstituir o friso a partir do motivo básico. É suficiente executar as instruções da direita para a esquerda: por exemplo, para o friso fm2, faz-se primeiro sofrer ao motivo básico (preto) uma simetria central (o "2"), seguidamente ele aplica-se ao resultado obtido uma reflexão vertical (o "m" à esquerda do "2"), e por último repete-se o desenho fundamental (formado de quatro motivos básicos, um preto e três brancos) aplicando translações ao infinito nos dois sentidos (o "f").

    Vejam agora os tipos de frisos que encontram-se entre os lambrequins da Ilha Reunião. O mais corrente é o fm1. Por um lado, a simetria bilateral é a do corpo humano, dos animais, de numerosas folhas de vegetais. É o que tranquiliza e permite ao habitante da casa reencontrar uma imagem dele mesmo. Por outro lado, a simetria bilateral é induzida pela função utilitária do lambroquin: uma estrutura simétrica e terminando-se em ponta é evidentemente mais eficaz para reunir a água de chuva e fazê-la gotejar na frente da fachada.

    O f1 é mais raro. Encontra-se em duas circunstâncias:
  • alguns motivos "naturais" procedentes da vontade estética do projetista;
  • f1 involuntários devido aos tetos em declive (raros na arquitectura crioula, onde os tetos são tipo pirâmides com quatro bordos horizontais): de modo que a ponta permaneça na vertical e permita o escoamento da água, é necessário inclinar o eixo dos motivos em relação à direção do friso.

    Na arquitectura tradicional, cada motivo de lambrequins possui frequentemente duas alternativas: uma versão fm1 para as bordas horizontais e uma alternativa f1 para as bordas inclinadas.

    Nas casas modernas, por motivo de economia, encontra-se apenas a versão fm1 que, de golpe, encontra-se inadaptada ao escoamento da água quando fixada em declive.

    O f2m resulta em geral de uma vontade de simetria que faz certos proprietários fixarem um segundo alinhamento de lambrequins girado para cima. Evidentemente, aquilo duplica o custo da decoração, o que explica a escassez desta fórmula. E mais, o alinhamento elevado não tem mais nenhuma função utilitário e resulta apenas numa escolha estética. Só um exemplo de verdade f2m (imagem da parte inferior) foi identificado (encontra-se no inventário realizado por Tony Manglou para o comissariado ao artesanato). Na verdade, a totalidade dos frisos encontram-se sob o rebordo do teto, mas aquilo provoca necessariamente uma ligeira ruptura de simetria causada pelos constrangimentos de fixação.

    O tipo fm2 aparece quando fixa-se lambrequins sobre os dois bordos de um teto horizontal, mas deslocando as duas bandas de modo que a simetria horizontal seja quebrada. É um tipo muito raro! Quanto ao tipo f2, ele aparece quando fixa-se f1 dos dois lados de um teto inclinado. É mais freqëente. Em resumo, os tipos f2m ou fm2 são duplos frisos que provêm do tipo fm1, enquanto que o tipo f2 é duplo friso que provem de f1.

    Eis dois outros exemplos de f2, observados nas ruas de Saint-Denis: um tradicional e um moderno.

    Finalmente, encontra-se apenas cinco tipos de frisos entre os lambrequins da Ilha Reunião. A sua freqëência de aparecimento é interessante de estudar. O quadro apresenta os resultados acumulados de quatro inquéritos estatísticos. Constata-se naturalmente que o tipo fm1 é largamente majoritário.

    Novo olhar sobre lambrequins.

    Olhando os lambrequins sob outros ângulos além da sua simples estrutura geométrica, poderá se fazer diversas observações.

    Em certas civilizações, há frisos por toda a parte: na arquitetura, no vestuário, nas jóias, na louça, na cerâmica, etc. na Ilha Reunião, existem apenas nos lambrequins. Mas geralmente, quase não se encontram desenhos com motivos repetitivos no artesanato e na cultura crioula. O único exemplo significativo a citarem, são os bordados "jours de Cilaos".

    Uma outra questão que pode ser colocada é a da influência das culturas que têm chegado tardiamente na Ilha Reunião: as culturas zarab, malbar e chinesa. Influenciaram os lambrequins como tinham sido concebidos à partida pelos carpinteiros de marinha e os primeiros habitantes? Como se fez o sincretismo? Sobre estes exemplos de compartimentos de famílias zarab, percebe-se que a cultura de origem exprime-se por caligrafias sobre os travessões, mas que o resto do compartimento respeita totalmente as regras da arquitetura crioula. Em especial, os lambrequins retomam motivos entre os mais tradicionais: a vinha (à esquerda) e a lanterna (à direita).

    Aqui, o lambroquin crioulo adaptou-se aos contornos torneados desta marquise de inspiração indiana.

    O que dizer das cores? A maior parte dos lambrequins observados são branca. Mais geralmente, pôde-se ter a impressão num período recente que a casa crioula sempre era pintada em branco. Com efeito, percebeu-se fazendo investigações que, num passado mais remoto, as casas freqüentemente eram pintadas de cores vivas. Esta tendência é reparada hoje em dia, mas, mesmo quando a casa é colorida, o lambroquin continua a ser frequentemente branco.

    É sobre as construções comerciais que encontram-se lambrequins de cor. Neste caso, o friso integra-se ao visual geral, com uma cor que provem do logotipo da empresa.

    Dado que há agora novos sistemas de eliminação da água de chuva e que os lambrequins perderam a sua função utilitária, porque não o pintar sobre o muro, muito simplesmente? É mais econômico: é suficiente uma lâmina. Sobre estes dois exemplos, o pintor deu relevo criando uma sombra artificial preta do lado esquerdo do motivo. Do golpe, há um enriquecimento da geometria que dá para analisar de duas maneiras:
  • seja como uma ruptura de simetria que transforma um fm1 em f1;
  • quer como friso bicromático (não se considera então a cor do contorno: branco ou preto).

    Brincando sobre uma alternância de motivos cheios e em partes côncavos, ou motivos finos e espessos, certos artesãos criaram uma espécie de ilusão de óptica que faz crer frisos bicromáticos formados de motivos brancos e pretos. Pode-se falar então de "bicromatismo simulado".

    A ruptura de simetria é outro meio de enriquecimento dos lambrequins. Visto de longe, alguns lambrequins parecem ser clássicos fm1, mas, quando se olham de mais perto, detecta-se um detalhe que faz referência apenas à f1. Em certa medida, o lambroquin se duplica: de acordo com o momento, é um ou o outro que percebe-se.

    Encontra-se também verdadeiros duplos frisos, ou seja dois frisos colocados uma acima do outro. Em geral, o friso da parte inferior é um lambroquin clássico de tipo fm1 que desempenha o seu papel utilitário, enquanto que o friso da parte superior é meramente decorativo. Geralmente, trata-se de um f2m para saturar a simetria. Mais raramente (imagem da parte inferior), encontra-se um f2 para, pelo contrário, quebrá-la completamente. Finalmente, duplica-se o friso, a ruptura de simetria e o bicromatismo simulado são meios inventados pelos artesãos, mais para exceder o constrangimento muito forte do lambroquin tradicional que, para efetivamente preencher a sua função, deve ser simétrico e pontiagudo para baixo, ou seja deve ser quase inevitavelmente um fm1.

    O que é do artesanato do lambroquin? Quase desapareceu. Hoje, encontra-se sobretudo o lambroquin em chapa, contra-placado ou PVC. Estes produtos, fabricados industrialmente, tomam lugar nas vitrines das lojas de ferragens.

    O Sr. Vee, instalado na Planície Palmistes, é provavelmente o último artesão tradicional capaz de fabricar lambrequins em madeiras recortados à mão. Mas tendo em conta o custo de fabrico do lambroquin em madeiras, foi forçado reciclar-se, essencialmente, em PVC, produto econômico que, tem a vantagem de ser já branco na massa.

    O Sr. Vee não hesita em compôr novos motivos, quer por sua própria iniciativa, ou a pedido de certos clientes.

    Recentemente, o Sr. Espinassier, instalado no Port, começou a fabricar lambrequins de maneira automatizada com uma máquina especialmente concebida para esse efeito.

    O Sr. Espinassier, através da madeira ou PVC, une-se a fazer reviver os motivos tradicionais, mas tem igualmente a preocupação de fazer evoluir o produto pela introdução de motivos novos e o uso da cor. Após um período difícil em que pôde-se temer o desaparecimento inegável de uma arte tradicional, esta iniciativa animadora mostra que a história do lambroquin crioulo é longe a ser terminada.


    Fonte: www-cabri.imag.fr

    Documento original .ppt

    Tradução : Babel Fish