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Uma pequena história de lambrequins...



OS LAMBROQUINS DA ILHA REUNIÃO: GEOMETRIA DIÁRIA, GEOMETRIA DO INFINITO

Dominique Tournès

http://www-cabri.imag.fr/nathalie/lambroquins/lambrdom.htm

Tradução:http://babelfish.altavista.com

Na Ilha Reunião, todos conhecem lambrequins, estes revestimentos de madeiras abertos que decoram varandas. Localmente, também chamado de "lambroquins" (ortografia que recebe a nossa preferência e que nós utilizaremos na seqüência) ou ainda, de maneira figurada e savoureuse, "dentelle o case". Originalmente, na Europa, os lambroquins eram bandas de tecido utilizadas para a decoração de um capacete, uma couraça, uma galeria de fen ter ou um céu de cama. Foram seguidamente ornamentos recortados, em madeiras ou metal, limitando uma capa. Sobre os navios, os lambroquins limitavam o teto que protege o ninho de galinha, lugar onde timoneiro tem a roda do leme (esta lugar também era designado pela palavra marinha "varangue"). Muito naturalmente, é pelo mar que os lambroquins chegaram à Ilha Reunião: os carpinteiros da marinha que construíram as primeiras casas da ilha adaptaram varangues das casa crioulas a decoração varangues dos navios. Desde então, estas rendas de madeiras tornaram-se um elemento significativo da arquitetura da Ilha Reunião. Para além da sua função decorativa, preenchem uma função utilitária: prendendo as águas que escoam do teto e fazendo-o gotejar verticalmente na frente da fachada, protegem este último da umidade.

Duas obras importantes consagram os lambroquins da Ilha Reunião: uma apaixonante brochura de Jean- Paul Egon (o Lambroquins de Ilha Reunião, CRDP Ilha Reunião, 1985) e um inventário técnico dos motivos utilizados (Lambroquins, sob a direção Tony Manglou, Comissariado ao Artesanato, Conselho geral da Reunião, 1985). Nos dois casos, o estudo, conduzido do ponto de vista do arquiteto ou o artesão, é centrado nos aspectos funcionais, decorativos, artísticos e simbólicos dos lambroquins. Nenhum das duas obras toma em conta o fato de estas rendas de madeiras, com desenhos e motivos repetitivos, pertencer primeiro à geometria. Permanecia, por conseguinte a necessidade de descrever a estrutura matemática subjacente a estes objetos familiares do nosso ambiente diário. É o que propomos fazer aqui. Tentaremos ser acessível evitando qualquer formalismo especializado. Limitaremos o nosso comentário no mínimo indispensável, deixando cada um construir a sua própria teoria pela contemplação das figuras e as fotografias.

A ornamentação, sob o seu aspecto primeiro, consiste na repetição de formas. Na maior parte das situações correntes, uma forma elementar, chamada motivo("motif"), é reproduzido através de simetrias, gerando um "desenho com motivos repetitivos" (que pode-se chamar também de rede - "réseau"). Pelo termo genérico de simetria, designamos aqui qualquer transformação que conserva a forma e as dimensões do motivo básico. Os decoradores sobretudo que têm trabalhado sobre redes com uma ou duas dimensões, faremos por conseguinte, no que segue, a geometria plana. Princípios da simetrias planas são conhecidas de todos na medida em que são estudadas durante o último ano da escola elementar: são as translações (deslocações de uma distância dada numa direção dada), as rotações (de um ângulo dado em redor de um centro dado) e as reflexões (chamadas também simetrias ortogonais em relação à uma direção). Aos três tipos precedentes, é necessário acrescentar as simetrias deslizadas, obtidos fazendo seguir uma reflexão por uma tradução paralela ao eixo da reflexão.


Os quatro tipos de simetria plana.

Pode-se classificar os desenhos dos motivos repetitivos a partir do número de direções segundo as quais o desenho é invariante por translação. Se o desenho não for conservado por nenhuma translação, fala-se de "rosace". Encontra-se, por exemplo, rosáceas entre os vitrais das catedrais. Mais perto de nós, o bordado jours de Cilaos são também rosáceas.
Segunda categoria: um desenho invariante por translação só em uma direção é chamado "frise". É o caso dos galões, das lâminas, dos frisos que decoram certos monumentos antigos como Parthénon... ou ainda os lambroquins.
Por último, um desenho invariante por translação em duas direções é chamado "pavage". Carrelage de uma peça, o desenho de um papel pintado num mural são exemplos familiares de pavages. Pode-se observar que, na ornamentação, rosácea é uma figura terminada, enquanto frisos e pavages são figuras infinitas (concretamente, pode-se representar apenas uma parte). Em certa medida, frisos e pavages permitem introduzir uma imagem do infinito na vida diária.


As três espécies de desenhos com motivos repetitivos.

Naturalmente, a concepção de um motivo básico é totalmente livre e oferece ao inventor uma infinidade de possibilidades. Em contrapartida, o número de maneiras de gerar uma rede a partir de um motivo básico é limitado por constrangimentos muito fortes que resultam da estrutura matemática do conjunto das simetrias do plano. No fim século XIX, graças à teoria dos grupos com procedente trabalhos de Galois e Abel, demonstraram que existiam apenas sete tipos possíveis frisos e de dezessete tipos possíveis de pavages. É interessante notar que todos os tipos teóricos de redes planas descritas pelos cientistas tinham sido descobertos muito mais cedo, de maneira empírica, pelos artesãos. Encontra-se já todos os pavages possíveis na ornamentação egípcia, ou ainda a arte islâmica: é assim que carrelages dos dezessete tipos podem ser contemplados em Alhambra Grenade, lugar místico que qualquer matemático deve visitar pelo menos uma vez na sua vida.

Mas retornando aos lambroquins, que são frisos. Os sete tipos de frisos são apresentados na figura 3, acompanhados de um algoritmo que permite determinar a qual tipo pertence o friso dado. A codificação utilizada é a dos cristallographes: "f" significa frise, "m" vem da palavra inglesa "mirror" (espelho, ou reflexão) e "g" vem da locução inglesa "glide reflection" (simetria deslizada); o número 1 ou 2 representa a ordem máxima de uma rotação que conserva o friso (1 quando não há rotação, 2 quando há uma rotação de ordem 2, ou seja meia volta). Quando a letra "m" ou "g" é colocada após o número, trata-se de uma reflexão ou uma simetria deslizada em relação ao eixo do friso (eixo "horizontal"); quando a letra "m" é colocada antes do número, trata-se de uma reflexão em relação a um eixo perpendicular ao friso (eixo "vertical"). A codificação fornece, finalmente, uma lista mínima de simetrias que permitem, a partir do motivo básico, gerar o desenho que será reproduzido seguidamente ao infinito por translação.


(fig. 3) Algoritmo de classificação dos frisos.

Teoricamente, deveria se poder encontrar sete tipos geométricos de lambroquins. Construiu-se , na figura 4, estes sete tipos a partir de um motivo básico simplificado conforme com o espírito dos motivos realmente utilizados na arquitetura crioula.


(fig. 4) Os sete tipos teóricos de lambrequins.

Encontram-se realmente estes sete tipos na Ilha Reunião? Para sabê-lo, efetuamos uma enquete estatística nas partes superiores do Oeste da ilha. Estudamos cem exemplos de lambroquins, e contamos o número de ocorrências de cada tipo. Aí está o resultado obtido:


O tipo mais corrente é inegavelmente o "f m1", cujo desenho apresenta apenas uma reflexão de eixo vertical. Os desenhos dos lambroquins "f m1" são extremamente variados, indo do mais simples ao mais trabalhado.


(fig. 5)Lambroquin de tipo "f m1" com motivo particularmente trabalhado.

Retornaremos, no fim do nosso artigo, sobre as características deste tipo predominante. De momento, apresentam resumidamente os outros tipos encontrados, os que podemos considerar como excepcionais na arquitetura crioula.
O caso dos lambroquins "f 1" é ligeiramente à parte. Com efeito, se encontrarmos dois casos realmente deste tipo (a figura 6 representa um deles), encontraremos igualmente oito exemplares de um "m" com desenho bastante curioso(figura 7).
À primeira vista, este desenho tem todas as aparências de um "f m1", mas uma observação mais atenta permite descobrir uma ligeira ruptura de simetria que nos mostra tratar-se , realmente, de um "f 1". Qualificaremos este exemplo de "faux f m1". Não nos parece significativo na medida em que o encontramos oito vezes num perímetro bastante restrito, enquanto que não é mencionado em nenhuma das obras que consultamos. Pode-se pensar que, sem dúvida, em um dado momento, um artesão das partes superiores do Oeste fabricou este motivo em série e distribuiu-o na sua vizinhança imediata, sem influência notável sobre o resto da produção da Ilha Reunião.


(fig. 6) Lambroquin de tipo f 1


(fig. 7) Uma "foice f m1" que é realmente um "f 1"

Além disso, não é necessário surpreender-se se os tipos que apresentam invariável por reflexão horizontal ou por meia-volta serem bastante raros. Com efeito, se aquilo não é nada obrigatório, parece-me natural recortá-lo em duas bandas que repartem-se de parte e outro da fração do teto. Nestas condições, a parte elevada não tem mais função utilitária ligada ao escoamento das águas de chuva: a sua presença, meramente gratuita, preenche apenas uma função estética.
As fotografias seguintes fornecem um bonito exemplo de "f 2m" (figura 8) e o único exemplo de "f 2" que encontramos (figura 9). O tipo "f2" presente em nenhum dos livros sobre a arquitetura da Ilha Reunião, o nosso exemplo é, até agora, provavelmente o único lambroquin de tipo "f 2" encontrado na Ilha Runião.


(fig. 8) Lambrequim tipo "f 2m"


(fig. 9) Único exemplo conhecido do tipo "f 2"

Os inventários de Jean- Paul Egon e Tony Manglou confirmam largamente as nossas observações. Jean- Paul Egon dá vinte exemplos de motivos apresentados como representativo da arquitetura da Ilha Reunião: todos, sem exceção, são do tipo "f m1". A coleção do Comissariado ao Artesanato quer-se mais exaustiva: encontram-se 157 exemplos de lambroquins, 154 dos quais do tipo "f m1", dois do tipo "f 2m" e só um do tipo "f m2" pode-se por conseguinte considerar que, fora de alguns casos pouco significativos sem dúvida ligados à encomendas de clientes originais, os artesãos da Ilha Reunião sempre produziram lambroquins de tipo "f m1", sem procurar explorar mais as possibilidades oferecidas pela geometria.

Como explicar esta falta aparente de imaginação? Porque se limitar a uma reflexão de eixo vertical enquanto que há umas outras simetrias disponíveis? A reflexão de eixo vertical, ou simetria bilateral desempenha um papel específico no mundo vivo: é a simetria do corpo humano e a maior parte dos organismos evoluídos. Ora, a arquitetura deve ser vista, sobretudo, como uma elaboração simbólica que transpõe as características fundamentais da natureza e, em primeiro lugar, as do homem. Neste sentido, era inevitável que na simetria há um lugar preponderante.
Se carreleurs árabes puderam, em Alhambra, realizar as dezessete espécies possíveis de pavages, pensa-se que é devido a um dado essencial da civilização muçulmana: a proibição da representação da figura humana e, mais geralmente, os muito vivos. Sujeitos a este forte constrangimento, os artistas árabes refugiaram-se na ornamentação geométrica abstrata. Gradualmente, descobriram empiricamente todas as potencialidades, encontrando lá pelo único meio para exercer a sua imaginação.
Para os fabricantes de lambroquins, a situação sempre foi diferente. A casa crioula é um lugar íntimo, harmoniosamente inserido numa vegetação luxuriante. O lambroquin de tipo "f m1" encontra-se em perfeita coerência: por um lado, a sua simetria bilateral está à imagem do homem que habita a casa, por outro lado os seus motivos são, geralmente, procedentes de formas estilizadas encontradas na vegetação tropical circundante. O lambroquin permanece assim um objeto familiar, aliviando, tranqüilizando. A sua única audácia reside no fato de ser um friso. Lançando uma ponte para o infinito, para outro lugar, para uma dimensão superior, recorda discretamente a casa crioula, mais geralmente o meio insular, é um mundo fechado e terminado. Toda a fascinação de uma ilha não provem do irresistível desejo de sair?

Atualmente, permanecem apenas dois artesãos que fabricam lambroquins na Ilha Reunião: Sr. Vee Nicko, da Cambuston, e o Sr. Bailleux, da Étang-Salé-les-Hauts,ambos parecem desanimados.
O lambroquin artesanal em madeiras, demasiado dispendioso, está a ponto de desaparecer dando lugar ao lambroquin em chapa única produzido em série por uma fábrica local. Estes artesãos chegam a sobreviver consagrando-se principalmente ao fabrico de travessões, balaústres e de motivos decorativos novos que não têm mais nada de geométricos. Nem um nem o outro forma aprendiz: a sua arte vai sem dúvida apagar-se com eles. A industrialização do lambroquin conduzirá inevitavelmente a um empobrecimento dos motivos, cada vez menos numeroso e cada vez mais estandardizado. É prejuízo que a arte do lambroquin crioulo desapareça antes de ter-se explorado todas as potencialidades geométricas: jovens artesãos poderiam renovar amplamente, exceder o clássico tipo "f m1" para explorar plenamente os outros seis tipo de frisos que a matemática oferece.

http://www-cabri.imag.fr/nathalie/lambroquins/lambrdom.htm

Tradução:http://babelfish.altavista.com