Grande Enciclopédia Larousse Cultural

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O Lambrequim (Diário da Tarde)

O Lambrequim (Fundação Cultural de Curitiba)

Lambrequim : Beirais Rendados em Curitiba

Arquitetura em Madeira : uma Tradição Paranaense

Curitiba Capital Ecológica

Lambrequim: Ornamentos em Casas de Madeira

Espirais de Madeira: uma História da Arquitetura de Curitiba

Os Lambroquins Da Ilha Reunião: Geometria Diária, Geometria do Infinito

Os Lambrequins de Reunião

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Simbólico e Poético

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Poesia de Luciana R. Mallon

Lambrequins em Ponta Grossa

Folder da Exposição:
"A Poética dos Lambrequins" - Valdir Francisco

Lambrequins e Rendilhados:
memória de ornamentos em madeira

Uma pequena história de lambrequins...



Espirais de madeira

Autor: Dudeque, Ira
Título: Espirais de madeira: uma história da arquitetura de Curitiba
Publicado: São Paulo : Studio Nobel : FAPESP, 2001.

...Logo após a emancipação, em 1853, a nova capital do Paraná, Curitiba, não criou uma legislação específica sobre problemas urbanos. Aparentemente, até o final do século XIX, a urbe manteve e adaptou o corpo de leis herdadas dos códigos portugueses e da matriz paulistana....

...a partir do início do século XX, a madeira passou a ser acessível aos curitibanos, graças ao maquinário para a derrubada, serragem e torneamento de peças.
As Posturas da Câmara Municipal de Curityba de 1895 não citavam construções em madeira. Nas duas décadas que se seguiram às posturas de 1895, as quantidades à disposição, maiores que as necessidades, fizeram com que o preço da madeira no Paraná fosse ínfimo. Casas, estábulos, vendas ou igrejas, as construções de madeira formaram a maior parte da paisagem construída do Paraná. Ao redor de Curitiba, havia dúzias de serrarias e toda a cocção dos alimentos era feita com lenha. Por isso, o bom tom da burguesia da cidade rezava que a madeira devia ser evitada. Os argumentos sobre as virtudes climáticas, psicológicas ou culturais da madeira não existiam. Usava-se porque era barato. E por muito tempo, entrando pelos anos 1970, em Curitiba, construção de madeira significaria falta de dinheiro e posição social inferior. Para os legisladores, uma urbe civilizada era uma urbe moldada com alvenaria. Para dificultar a construção de residências em madeira, várias prescrições legais apareceram no Código de Posturas promulgado em 1919. Curitiba foi dividida em 3 círculos concêntricos. O primeiro círculo deveria ser um mostruário da civilidade curitibana, e todas as construções deveriam ser de alvenaria, no alinhamento das ruas, com alturas idênticas (como a preocupação era impossibilitar que as mazelas fossem vistas da rua, muitas residências de madeira foram toleradas atrás de fachadas de alvenaria. No segundo círculo, as construções em madeira eram permitidas, desde que fossem pintadas a óleo, não tivessem mais de um pavimento, o recuo frontal tivesse pelo menos 10m e os recuos laterais tivessem 2m, até as cercas. No terceiro círculo da urbe as obras de madeira deveriam seguir as mesmas regras, mas, como eram imunes a visitantes de outras plagas, podiam ser pintadas de cal.

...Em relação às residências de madeira, a determinação mais curiosa do Código de Posturas de 1919 estava no parágrafo 7º do Artigo 61: "Sejam as abas dos telhados, excepto as do fundo, guarnecidas de lambrequins". O decorativismo era evidente, Sem calhas à disposição, os lambrequins se justificavam, como pingadeiras, nas arestas por onde as águas das chuvas fluíam, impedindo que a água escorresse pelos beirais. Mas as posturas municipais passaram a exigir os lambrequins em todas as abas visíveis a partir da rua. O motivo era um modismo em voga há alguns anos pois, como registram Eduardo Corona e Carlos Lemos no Dicionário da Arquitetura Brasileira, todas as grandes cidades brasileiras do final do século XIX dispunham de "chalés franco-suíssos lambrequinados". Um modismo cujo registro pode ser encontrado, por exemplo, num romance como O Ateneu, de Raul Pompéia, publicado em 1888 e que citava "os lambrequins pintados do coreto". Tal modismo resultaria em uma das mais acalentadas lendas curitibanas.

Em Curitiba, o uso de lambrequins nas residências data justamente, do final do século XIX. Em português, a palavra lambrequim existe, pelo menos, desde a década de 1850. As cinco primeiras edições do Dicionário da Língua Portuguesa, de Antonio de Morais Silva, não faziam qualquer referência, mas a 6ª edição de 1858, definia lambrequim como sendo " termo de brazão, ornatos, pennachos, que pendem do elmo à roda, ou sobre o escudo". As edições seguintes registrariam "ornato com recortes de madeira ou lâmina metálica para beirais de telhado, cortinas, etc.." Existem dúvidas quanto à origem da palavra, mas a hipótese mais aceita é que surgiu do neerlandês medieval. Lamperkijn seria o diminutivo de lamper, que significava pano, véu, (atualmente a grafia neerlandesa é lambrekijn). Provavelmente no século XV, esta palavra chegou na França, significando a cobertura do capacete dos guerreiros(...). Depois, a palavra chegou à heráldica, como um ornato que pendia do elmo sobre o escudo (...). A partir daí, les lambrequins foram usados pela arquitetura, transformados em ornamentos para pendurar (...), como recortes de pano, metal ou madeira, para enfeite de pavilhão, cantoneira, toldo, etc. (...) ... No inglês, o primeiro registro da palavra é de 1725, com um sentido heráldico ... A partir da década de 1880, nos Estados Unidos, the lambrequin passou a ter um sentido decorativo, como uma cornija com sanefa de fitas pendentes ou peças agudas, colocada sobre uma porta ou janela (...), ou como uma pequena cortina ou peça drapeada suspensa como ornamento na concavidade da lareira (...).
Toda a tergiversação do parágrafo anterior sobre a palavra lambrequim serve para esclarecer o método de criação da verdadeira arquitetura de Curitiba, nos anos 1960-70. As posturas de 1919 eram desconhecidas, assim como os percursos e desvios do lamperkijn ( lambrekijn, les lambrequins, os lambrequins, the lambrequins).

...Aparentemente, os arquitetos da cidade acreditavam que a primeira sistematização de regras urbanísticas e arquitetônicas datava do Plano Agache, de 1943, e que antes a urbe e suas obras cresciam ao gosto dos construtores, sem posturas, sem imposições, num estágio de liberdade edênica, à margem das legislações do resto do país. De desconhecimento em desconhecimento, acreditou-se que os lambrequins eram uma prova clara e claríssima da influência germânica ou italiana, pois os construtores alemães eram os mais ativos da cidade no final do século XX. Mas como alemães e italianos havia em outras partes do Brasil, onde os lambrequins não eram tão triviais, a solução foi inventar genealogias que acabaram ligando os lambrequins aos poloneses. Ora, se a maioria dos poloneses que imigraram para o Brasil se estabeleceram na região de Curitiba, e como só em Curitiba todas as casas de madeira foram decoradas com lambrequins, o lambrequim só podia estar relacionado aos poloneses ou, pelo menos, esta seria a "origem mais provável", sem que outras hipóteses fossem formuladas. E, assim, o modismo que se transformou numa imposição legal inexistente em outras cidades brasileiras seria divulgado como uma particularidade cultural da arquitetura de Curitiba, influenciada por um grupo étnico.

... Mas o erro historiográfico cometido pelos arquitetos curitibanos acabaria se revelando um acerto histórico....Aquilo que era uma infâmia tornou-se uma honraria. Graças a esse erro, uma parcela da arquitetura de madeira de Curitiba escapou do furor destrutivo semelhante ao que ocorrera no início da década de 1950 quando, como já foi visto, a imprensa exigia que as construções coloniais fossem extirpadas da urbe...

Autor: Dudeque, Ira
Título: Espirais de madeira: uma história da arquitetura de Curitiba
Publicado: São Paulo : Studio Nobel : FAPESP, 2001.